Fase ruim;

Você é minha fase ruim.
Não. Você não me conheceu numa fase ruim.
Você é a fase ruim.
Você é o tipo de pessoa que faz as coisas desandarem, que provoca a fúria das coisas.
Você é o tipo de pessoa que descoisifica qualquer coisa. Alguém assim não pode ser coisa boa.
Você é minha fase ruim.
Eu não vou fugir de você simplesmente porque você cismou em também não querer fugir de mim. Quando você fugir de mim, eu fujo de você. Não é assim que as coisas são?
As coisas.
A respiração compassada soltando jatos de feromônios safados, provocando um transe erotomaníaco, loucuras que rodeiam nossas cabeças entre os intervalos dos gozos arrancados com facilidade tântrica, os gemidos mortos no travesseiro, os olhares embaçados, o desfoque do amor colado, aquele campo de consciência reduzido ao espaço não–existente entre os_rostos_grudados_na_cola_feromônica dos tesões perdidos entre os lençóis.
A vida sai de foco e então você percebe que foto bonita mesmo é aquela borriscada, porque tudo nessa vida é riscado, ou desfocado, ou manchado, ou cheio de ruído. Não existe informação pura. Não existem mensagens perfeitas, sem ruídos e interferências.
O amor não é mensagem.
É ruído puro. 
 Cato Alberico Ribeiro

Que tipo de marinheiro tem medo do mar?


Queria navegar por aí, conhecer todas os portos e todos os rostos... Passar por todas as ilhas e todas as costas. Conduzir navios, ver sereias, conversar com Netuno e negociar com piratas. Ter toda a emoção e o frio na barriga de passar por todas as aventuras que sei que o mar pode oferecer, e todas as que não sei, enfrentando tempestades e matando monstros marinhos.

Mas tenho medo.
Tenho medo da morte e tenho medo de navegar sem rumo. De afundar e de morrer no encanto de uma sereia, no desconhecido. E tenho medo de nunca mais poder ver o seu rosto.
Talvez os outros medos sejam como uma máscara pra disfarçar o meu maior medo. Não é o que todo mundo faz? Todos estão sempre mascarando algo maior com um monte de coisas pequenas que se juntarmos também se tornam algo grande... E acaba que sempre temos muitas coisas grandes dentro de nós, que usamos pra mascarar algo pior ainda. Mas não é esse o ponto. O ponto é que não tenho medo de nada disso. Mataria mil monstros se precisasse, aprenderia a nadar, jogaria todas as minhas bussolas e mapas no mar... Mas nunca poderia te deixar esperando por mim em uma costa qualquer, sem saber se voltaria ou como voltaria. E no final você é o meu maior medo. E minha coragem também.

Então, se tu queres saber, eu iria se tu fosses.

if i never see you again;

if I never see you again
I will always carry you
inside
outside

on my fingertips
and at brain edges

and in centers
centers
of what I am of
what remains.


Charles Bukowski

coração;

Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.
José Saramago.

A Procura;

Às vezes me encontro bem longe de mim, com a cabeça em outro lugar, pensando no que não existe... De vez em quando, quando me procuro, não me acho em lugar nenhum, só encontro o vazio aquecido no lugar do que parecia ser eu. Essa é a hora que acho a mim em outra pessoa e tomo conta, pra não me perder entre outros cabelos e unhas e não esquecer de mim.

Ghost;


Limpou os pés no tapete ao chegar em casa, tirou os sapatos e olhou para os lados, sabendo exatamente o que procurava; Mas a casa estava vazia.
Um pouco frustrada, tirou a roupa e foi ao banheiro preparar um de seus banhos quentes de duas horas seguidas, mil coisas ocupavam sua mente cansada, acabou pegando no sono por pensar demais.
Um tempo depois abriu os olhos e ele estava lá, observando-a carinhosamente... Ela se assustou por um momento, mas quando seus olhos lhe mostraram quem era, a calmaria tomou conta dela novamente.
“Estivera um bom tempo fora...” Disse em um tom bem baixo, brincando com a espuma com uma das mãos.
“Sim, me desculpe. Mas você não me queria por perto.”
“Por que não iria querer?”
“Você sempre deixa isso bem claro...”
“Sempre te quero por perto.”
Sorriu e deixou o banheiro. Ele passou os últimos cinco dias sem dar notícias... Mas foi bom para ela. Saiu da banheira e puxou o tampão, observando a água escorrer até o final, mexendo na espuma que restava, pegou a toalha e foi andando pela casa, molhando todo o chão por onde passavam, quando o viu sentado na cama; jogou a toalha para um lado qualquer e se jogou em cima dele.
“Não faça isso de novo. Eu sinto sua falta.”
“Mas eu deixei uma carta.”
“Onde?”
“Aqui.” Disse apontando para o móvel de cabeceira.
Ela puxou a gaveta rapidamente pra ler a carta, que tinha apenas duas linhas.

“Me desculpe por sair tão rápido assim,
E não se preocupe, voltarei assim que precisar de mim.”

Ela encarou-o por um tempo com um sorriso bobo, mordendo o lábio inferior.
“Eu te amo tanto... É uma pena você não existir.”
Então ele desapareceu.

Perto demais;


Passava as pontas dos dedos lentamente sobre as costas nuas dela, sentindo cada ponta de arrepio que se externava em sua pele.
Os raios de sol se escondiam atrás de uma densa camada de nuvens escuras, anunciando a chegada de uma tempestade.
Pareciam não se preocupar. O tempo não existia.
“Me abraça forte” dizia ela “Faz de conta que a gente nunca mais vai se abraçar.”
Apertara os braços em volta de sua cintura o mais forte que pôde, puxando-a do chão, como se fosse a última vez.
A tempestade passou, mas o dia continuava escuro.
Caminhavam pela estrada vazia, debaixo do céu alaranjado e não tinham lugar nenhum pra ir.
Mas não podiam caminhar sem destino pra sempre.
Os pés se cansam.
O tempo existe.
E o tempo passa.
Os raios de sol continuavam escondidos. Mas não haviam mais arrepios, nem mãos suadas, nem abraços apertados.
A menina tinha encontrado outro amor e ido embora pra ser feliz.

Contradizendo Mário Quintana, o ruim de morrer de amor é que a gente continua vivendo.