Que tipo de marinheiro tem medo do mar?


Queria navegar por aí, conhecer todas os portos e todos os rostos... Passar por todas as ilhas e todas as costas. Conduzir navios, ver sereias, conversar com Netuno e negociar com piratas. Ter toda a emoção e o frio na barriga de passar por todas as aventuras que sei que o mar pode oferecer, e todas as que não sei, enfrentando tempestades e matando monstros marinhos.

Mas tenho medo.
Tenho medo da morte e tenho medo de navegar sem rumo. De afundar e de morrer no encanto de uma sereia, no desconhecido. E tenho medo de nunca mais poder ver o seu rosto.
Talvez os outros medos sejam como uma máscara pra disfarçar o meu maior medo. Não é o que todo mundo faz? Todos estão sempre mascarando algo maior com um monte de coisas pequenas que se juntarmos também se tornam algo grande... E acaba que sempre temos muitas coisas grandes dentro de nós, que usamos pra mascarar algo pior ainda. Mas não é esse o ponto. O ponto é que não tenho medo de nada disso. Mataria mil monstros se precisasse, aprenderia a nadar, jogaria todas as minhas bussolas e mapas no mar... Mas nunca poderia te deixar esperando por mim em uma costa qualquer, sem saber se voltaria ou como voltaria. E no final você é o meu maior medo. E minha coragem também.

Então, se tu queres saber, eu iria se tu fosses.

if i never see you again;

if I never see you again
I will always carry you
inside
outside

on my fingertips
and at brain edges

and in centers
centers
of what I am of
what remains.


Charles Bukowski

coração;

Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.
José Saramago.

A Procura;

Às vezes me encontro bem longe de mim, com a cabeça em outro lugar, pensando no que não existe... De vez em quando, quando me procuro, não me acho em lugar nenhum, só encontro o vazio aquecido no lugar do que parecia ser eu. Essa é a hora que acho a mim em outra pessoa e tomo conta, pra não me perder entre outros cabelos e unhas e não esquecer de mim.

Ghost;


Limpou os pés no tapete ao chegar em casa, tirou os sapatos e olhou para os lados, sabendo exatamente o que procurava; Mas a casa estava vazia.
Um pouco frustrada, tirou a roupa e foi ao banheiro preparar um de seus banhos quentes de duas horas seguidas, mil coisas ocupavam sua mente cansada, acabou pegando no sono por pensar demais.
Um tempo depois abriu os olhos e ele estava lá, observando-a carinhosamente... Ela se assustou por um momento, mas quando seus olhos lhe mostraram quem era, a calmaria tomou conta dela novamente.
“Estivera um bom tempo fora...” Disse em um tom bem baixo, brincando com a espuma com uma das mãos.
“Sim, me desculpe. Mas você não me queria por perto.”
“Por que não iria querer?”
“Você sempre deixa isso bem claro...”
“Sempre te quero por perto.”
Sorriu e deixou o banheiro. Ele passou os últimos cinco dias sem dar notícias... Mas foi bom para ela. Saiu da banheira e puxou o tampão, observando a água escorrer até o final, mexendo na espuma que restava, pegou a toalha e foi andando pela casa, molhando todo o chão por onde passavam, quando o viu sentado na cama; jogou a toalha para um lado qualquer e se jogou em cima dele.
“Não faça isso de novo. Eu sinto sua falta.”
“Mas eu deixei uma carta.”
“Onde?”
“Aqui.” Disse apontando para o móvel de cabeceira.
Ela puxou a gaveta rapidamente pra ler a carta, que tinha apenas duas linhas.

“Me desculpe por sair tão rápido assim,
E não se preocupe, voltarei assim que precisar de mim.”

Ela encarou-o por um tempo com um sorriso bobo, mordendo o lábio inferior.
“Eu te amo tanto... É uma pena você não existir.”
Então ele desapareceu.

Perto demais;


Passava as pontas dos dedos lentamente sobre as costas nuas dela, sentindo cada ponta de arrepio que se externava em sua pele.
Os raios de sol se escondiam atrás de uma densa camada de nuvens escuras, anunciando a chegada de uma tempestade.
Pareciam não se preocupar. O tempo não existia.
“Me abraça forte” dizia ela “Faz de conta que a gente nunca mais vai se abraçar.”
Apertara os braços em volta de sua cintura o mais forte que pôde, puxando-a do chão, como se fosse a última vez.
A tempestade passou, mas o dia continuava escuro.
Caminhavam pela estrada vazia, debaixo do céu alaranjado e não tinham lugar nenhum pra ir.
Mas não podiam caminhar sem destino pra sempre.
Os pés se cansam.
O tempo existe.
E o tempo passa.
Os raios de sol continuavam escondidos. Mas não haviam mais arrepios, nem mãos suadas, nem abraços apertados.
A menina tinha encontrado outro amor e ido embora pra ser feliz.

Contradizendo Mário Quintana, o ruim de morrer de amor é que a gente continua vivendo.

Ch-ch-ch-changes;

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."


Fernando Pessoa.

We get on;

“Eu quero sair daqui. Eu quero alguém que me tire daqui. Eu quero alguém que me ame com fúria e desespero e que machuque meus lábios num beijo só porque me quer. Eu quero alguém que escreva meu nome em seu braço, mesmo sabendo que nada é pra sempre. Vamos desaparecer, vamos apenas ser estranhos nessa terra e em lugar nenhum. Eu quero alguém que violentamente arrasta-me no chão e não me permita resistir. Alguém que me puxe pelos cabelos e me arranhe sem piedade. Eu quero sair daqui. Eu quero alguém que me faça perder a cabeça e depois me encontrar. Eu quero alguém que me enlouqueça e ganhe o meu coração todos os dias. Eu quero alguém para me guiar, me proteger, me reger, me iluminar, me queimar. Que me dê insônia, raiva, inveja, lágrimas, febre e um sorriso. Eu quero alguém de verdade, puro e imaculado, sujo e sagrado. Eu quero alguém que vá para qualquer lugar. Eu quero alguém que mergulhe nos meus olhos e não tenha medo de saltar para o abismo e queimar no inferno comigo. Eu quero alguém que não pergunte para onde estamos indo. Eu quero alguém que acorde comigo. Eu quero alguém que não quebre promessas e que me dê sempre tudo que é tão real. Quero alguém que me deixe doente, louca, suada. Que rasgue a minha paz e meu coração fora.”

O inferno é aqui;


Adentrou a casa lentamente.
O silêncio era sufocante, parecia segurar sua garganta num nó gigantesco... Impossível de engolir.
Até mesmo os passos que dava não faziam barulho algum, exceto quando pisava em algum piso oco.
Passara a noite em claro, imaginando o porque do telefone estar sempre ocupado ou fora da área de serviço. Também não podia perguntar a ninguém – Só tinham um ao outro.
Dirigiu por horas até o refúgio deles; horas que se não existissem, talvez fosse diferente.
Mas o tempo existe.
E tudo o que ele toca se desfaz.
A cada passo que dava o nó da garganta aumentava, mesmo tentando engolir seco. Parecia rasgar tudo por dentro, da garganta até o estômago.
A casa era abandonada, sabe-se lá o que aconteceu com os proprietários antigos. Nem rede elétrica possuía. Era o que eles dois usavam pra fugir do mundo externo e fingir que tinham um mundo só deles.
Seguiu as pequenas pegadas até o andar de cima, levavam ao banheiro.
Hesitou.
As pegadas não saíam de lá.
As pegadas não saíam de lá.
– Repetiu a si mesmo.
Parou, ficou alguns instantes encarando... Tentando lembrar da última conversa que tiveram.

“Imagina o que vem depois da morte...”
“Não consigo imaginar. Acho que é um nada. Você, flutuando num mar infinito de... escuridão. E nada.”
“Acha isso mesmo?” Disse ela, rindo. “Eu já acho que o céu exista. Mas lá não é legal, então prefiro ir para o inferno.”
“Por que o céu não é legal?”
“Porque o céu é um lugar onde nada acontece. Onde todos querem encontrar a paz de espírito que não conseguiram encontrar aqui. E as músicas devem ser péssimas!”
“E o inferno, como é?”
“O inferno é aqui.”
“Então a gente morreu?”
“Não sei, quem sabe uma hora descobrimos juntos.”

O nó em sua garganta estava gigantesco, não conseguia respirar - Esqueceu de respirar.
Engoliu todo ar que pôde e prosseguiu, andando lentamente até o banheiro.
Lá estava ela, na banheira.
Típica cena de filme... A moça bonita banhada em sangue, com a expressão sonhadora.
A faca boiava na água enquanto o silencio sufocou-o de vez.
Tentou gritar, mas não saiu som algum.
Todos os pensamentos pareciam ferver o cérebro dele, perguntou a si mesmo o que fazer...
Não obteve resposta.
Não conseguia chorar, não conseguia gritar, não conseguia pensar mais em nada.
Encarou o rosto dela e imaginou seu sorriso.
Queria vê-lo de novo. Queria enrolar os dedos em seu cabelo de novo e dizer que ia ficar tudo bem.
Correu até o quarto e pegou uma arma na gaveta da mesinha de canto, correu de volta ao banheiro e sentou-se ao lado da banheira.
Encarou a arma por alguns instantes, enquanto seu corpo estremecia e era tomado por calafrios.
Então vamos descobrir juntos do que o inferno é feito.
Puxou o gatilho.

Carta para uma incerteza;


Gosto de lembrar quando éramos tão próximos que os sussurros percorriam os quilômetros e chegavam aos destinatários no tempo correto.
Não sei se você ainda sussurra, mas eu ainda tento. E mesmo que chegue a outros ouvidos, fico feliz. Talvez assim eles saibam que o amor existe e não desistam.
Às vezes, pra me consolar, imagino que você nunca existiu. Que você é uma brincadeira da minha mente pra fingir que tive momentos bons com alguém tão distante. E que no fundo, só aprendi bastante comigo mesma. No fundo eu sei que você ainda está lá, e imagino que ainda se importe.
Mas o tempo existe, certo? É o capataz cruel que tortura a alma de quem se atreve a sentir.
Um pouco chato saber que essa distância que dói tanto é produto dele. Pior ainda saber que não é pessoal, que não é só com a gente.
Queria te lembrar que as nossas poltronas ainda estão reservadas e que o champagne ainda não estourou. E também queria te lembrar que meu amor por você é equivalente à quantidade de sardas na minha pele, ou à quantidade de cachos que o seu cabelo guardava – foram todos pro chão, não é mesmo?
Se você é real, espero de todo o meu coração que sinta metade dessa saudade que ainda amarra a minha garganta num nó cego depois de tanto tempo.
Se não for, obrigada pelas memórias, Domador de palavras.

...As snow falls on desert sky, until the end of everything.

Do nosso amor a gente é que entende.