
Adentrou a casa lentamente.
O silêncio era sufocante, parecia segurar sua garganta num nó gigantesco... Impossível de engolir.
Até mesmo os passos que dava não faziam barulho algum, exceto quando pisava em algum piso oco.
Passara a noite em claro, imaginando o porque do telefone estar sempre ocupado ou fora da área de serviço. Também não podia perguntar a ninguém – Só tinham um ao outro.
Dirigiu por horas até o refúgio deles; horas que se não existissem, talvez fosse diferente.
Mas o tempo existe.
E tudo o que ele toca se desfaz.
A cada passo que dava o nó da garganta aumentava, mesmo tentando engolir seco. Parecia rasgar tudo por dentro, da garganta até o estômago.
A casa era abandonada, sabe-se lá o que aconteceu com os proprietários antigos. Nem rede elétrica possuía. Era o que eles dois usavam pra fugir do mundo externo e fingir que tinham um mundo só deles.
Seguiu as pequenas pegadas até o andar de cima, levavam ao banheiro.
Hesitou.
As pegadas não saíam de lá.
As pegadas não saíam de lá. – Repetiu a si mesmo.
Parou, ficou alguns instantes encarando... Tentando lembrar da última conversa que tiveram.
“Imagina o que vem depois da morte...”
“Não consigo imaginar. Acho que é um nada. Você, flutuando num mar infinito de... escuridão. E nada.”
“Acha isso mesmo?” Disse ela, rindo. “Eu já acho que o céu exista. Mas lá não é legal, então prefiro ir para o inferno.”
“Por que o céu não é legal?”
“Porque o céu é um lugar onde nada acontece. Onde todos querem encontrar a paz de espírito que não conseguiram encontrar aqui. E as músicas devem ser péssimas!”
“E o inferno, como é?”
“O inferno é aqui.”
“Então a gente morreu?”
“Não sei, quem sabe uma hora descobrimos juntos.”
O nó em sua garganta estava gigantesco, não conseguia respirar - Esqueceu de respirar.
Engoliu todo ar que pôde e prosseguiu, andando lentamente até o banheiro.
Lá estava ela, na banheira.
Típica cena de filme... A moça bonita banhada em sangue, com a expressão sonhadora.
A faca boiava na água enquanto o silencio sufocou-o de vez.
Tentou gritar, mas não saiu som algum.
Todos os pensamentos pareciam ferver o cérebro dele, perguntou a si mesmo o que fazer...
Não obteve resposta.
Não conseguia chorar, não conseguia gritar, não conseguia pensar mais em nada.
Encarou o rosto dela e imaginou seu sorriso.
Queria vê-lo de novo. Queria enrolar os dedos em seu cabelo de novo e dizer que ia ficar tudo bem.
Correu até o quarto e pegou uma arma na gaveta da mesinha de canto, correu de volta ao banheiro e sentou-se ao lado da banheira.
Encarou a arma por alguns instantes, enquanto seu corpo estremecia e era tomado por calafrios.
Então vamos descobrir juntos do que o inferno é feito.
Puxou o gatilho.