Blue;


Correr talvez não seja a coisa certa a se fazer.
Fugir nunca foi exatamente bonito.
Mas o que faria? Sentaria e iria olhar o mundo acabar bem na sua frente?
Não.
Deu as costas e correu.
Correu até que se cansasse. E aí correu um pouco mais.
Não que soubesse onde estava indo. Só queria ir. Só queria sair de perto e esquecer o que um dia disse que não iria esquecer.
Talvez devesse ser dessa forma mesmo. Melhor parar de martelar mais pregos na tabua. Que por sinal já está meio apodrecida.
Tropeçou nas próprias pernas e caiu num abismo de ferrugem. Um abismo que parecia não ter fim. Descida, descida, descida, descida.
E caiu.
De. cara. no. chão.

"- Vê se desse jeito você acorda. E começa a enxergar o que você tem que enxergar." - Disse uma voz desconhecida. Aveludada, doce e áspera ao mesmo tempo. Com um tom sarcástico. E talvez divertido.

Continuou andando.
Agora vai procurar a saída do abismo de ferrugem. Com a música que não vai deixá-lo em paz.


Colour my life with the chaos of t r o u b l e.

We all get left behind;


Caminhava em passos largos. Devagar.
Com os olhos focados no chão e apertando os punhos dentro do casaco. As lembranças lambiam a sua face, assim como os pingos de chuva que caiam sobre ela. Tarde de inverno, nada demais. Os pensamentos que congestionavam a sua mente e aquela música que não o deixaria em paz.
Os pulsos da menina que passa são iguais aos dela. A blusa de um cara é da cor do seu cabelo...
E a música que não o deixaria em paz.

- - - -

- As coisas não estão mais sendo como eram.
- Não?
- Não. Você está distante...
- Mas eu sou a única coisa que você precisa.
- E eu sou a única coisa que você despreza.


- - - -

Não tinha rumo. Estava indo onde as suas pernas o levavam.
A chuva ficava mais forte enquanto o tempo passava. Tentava imaginar o que ela estava fazendo, ou com quem estaria... Procurava a todo instante o motivo exato por ter ido embora. E esperava que ela aparecesse correndo em sua frente, gritando pro mundo o quanto o amava.
Mas não aconteceu.
A única coisa que aconteceu foram as suas pernas começarem a doer e ele parar num pub pra acender um cigarro e descansar. Coincidentemente a música que estava tocando era a que ele menos queria ouvir.
Continuou andando.

- - - -

- É como se eu tivesse deixado de te amar há um tempo e só tivesse descoberto agora, sabe?
- E há quanto tempo você acha que não me ama mais?
- Acho que na verdade eu nunca amei você.
- Então o que você sentia?
- Nada. Eu só não tinha mais ninguém.

- - - -

Cinco anos.
Cinco anos de qualquer coisa que nunca foi importante. Pra ninguém, na verdade.
Mas quando você é sozinho, ou não procura ninguém. E alguém ao menos finge que você significa algo - Ou realmente significa por alguns instantes - as coisas mudam...
O seu chão some. E só tem uma pessoa te segurando pelo dedo mindinho.
Provavelmente uma hora ela vai solta-lo, você é um ser humano, você pesa. E ninguém agüenta segurar peso nenhum por muito tempo. Ninguém.

- - - -

- Você acha que nós vamos nos encontrar de novo?
- Não sei. Não sei nem o que vai ser daqui pra frente.
- Mas você não estava feliz?
- Vou voltar a minha vida pré-você. Só isso.
- Talvez você fique melhor dessa forma, oras.


- - - -

Continuou caminhando, e parou pra vista da ponte – Bem alta, por sinal.
O rio, a cidade, pessoas que pareciam formiguinhas andando do outro lado do rio. E pessoas em barcos.
Ninguém é feliz, chegou à conclusão.
Ninguém é feliz por muito tempo, porque a felicidade é conseqüência de um momento. E momentos são completamente passageiros, pra qualquer ser-vivo. E o tempo... O tempo destrói as coisas. O tempo destrói barras de ferro e gerações. Talvez o tempo seja o culpado de tudo.
Olhou pro cigarro que estava só o filtro, já. Olhou pra trás.
E pulou.


- - - -

- Você não está exagerando um pouco?
- Não.
- Então eu estou perdendo um amigo?
- Relaxa. No final, todos são deixados para trás.