
Caminhava em passos largos. Devagar.
Com os olhos focados no chão e apertando os punhos dentro do casaco. As lembranças lambiam a sua face, assim como os pingos de chuva que caiam sobre ela. Tarde de inverno, nada demais. Os pensamentos que congestionavam a sua mente e aquela música que não o deixaria em paz.
Os pulsos da menina que passa são iguais aos dela. A blusa de um cara é da cor do seu cabelo...
E a música que não o deixaria em paz.
- - - -
- As coisas não estão mais sendo como eram.
- Não?
- Não. Você está distante...
- Mas eu sou a única coisa que você precisa.
- E eu sou a única coisa que você despreza.- - - -
Não tinha rumo. Estava indo onde as suas pernas o levavam.
A chuva ficava mais forte enquanto o tempo passava. Tentava imaginar o que ela estava fazendo, ou com quem estaria... Procurava a todo instante o motivo exato por ter ido embora. E esperava que ela aparecesse correndo em sua frente, gritando pro mundo o quanto o amava.
Mas não aconteceu.
A única coisa que aconteceu foram as suas pernas começarem a doer e ele parar num pub pra acender um cigarro e descansar. Coincidentemente a música que estava tocando era a que ele menos queria ouvir.
Continuou andando.
- - - -
- É como se eu tivesse deixado de te amar há um tempo e só tivesse descoberto agora, sabe?
- E há quanto tempo você acha que não me ama mais?
- Acho que na verdade eu nunca amei você.
- Então o que você sentia?
- Nada. Eu só não tinha mais ninguém.
- - - -
Cinco anos.
Cinco anos de qualquer coisa que nunca foi importante. Pra ninguém, na verdade.
Mas quando você é sozinho, ou não procura ninguém. E alguém ao menos finge que você significa algo - Ou realmente significa por alguns instantes - as coisas mudam...
O seu chão some. E só tem uma pessoa te segurando pelo dedo mindinho.
Provavelmente uma hora ela vai solta-lo, você é um ser humano, você pesa. E ninguém agüenta segurar peso nenhum por muito tempo. Ninguém.
- - - -
- Você acha que nós vamos nos encontrar de novo?
- Não sei. Não sei nem o que vai ser daqui pra frente.
- Mas você não estava feliz?
- Vou voltar a minha vida pré-você. Só isso.
- Talvez você fique melhor dessa forma, oras.- - - -
Continuou caminhando, e parou pra vista da ponte – Bem alta, por sinal.
O rio, a cidade, pessoas que pareciam formiguinhas andando do outro lado do rio. E pessoas em barcos.
Ninguém é feliz, chegou à conclusão.
Ninguém é feliz por muito tempo, porque a felicidade é conseqüência de um momento. E momentos são completamente passageiros, pra qualquer ser-vivo. E o tempo... O tempo destrói as coisas. O tempo destrói barras de ferro e gerações. Talvez o tempo seja o culpado de tudo.
Olhou pro cigarro que estava só o filtro, já. Olhou pra trás.
E pulou.
- - - -
- Você não está exagerando um pouco?
- Não.
- Então eu estou perdendo um amigo?
- Relaxa. No final, todos são deixados para trás.