Strange little girls;


“Ela parece tão focada, tão quieta… Pra completar, seus olhos permanecem fixos no horizonte.

Você acha conhecer tudo o que há para se conhecer nela imediatamente depois de encontrá-la, mas tudo o que você julga saber está errado. A paixão corre através dela como um rio de sangue.

Ela só desviou o olhar por um instante, e a máscara caiu, junto com você. Todos seus amanhãs começam aqui.”



(Neil Gaiman&Tori Amos)

Batalha do Eu - Pt. I


Os trilhos pareciam infinitos enquanto o trem deslizava sobre eles.
Viagem pra lugar nenhum, antes que pergunte o meu destino.
Uma apresentação:
Não tenho nome – E nem preciso de um.
Ninguém me chama. Ninguém me pergunta isso. Por aqui, sou eu quem questiona.
Questiono pra não enlouquecer...
Nesse mundão em que todo mundo é meio louco, sanidade só torna a compreensão mais difícil.
Resolvi dar uma olhada no trem, esticar as pernas... Para o meu alivio, não tinha gente o suficiente pra eu me sentir incomodado por estar ali. Havia um velho dormindo enrolado em cobertores de lã, parecia uma lagarta num casulo.
Também tinha um homem louro, com os olhos fixos na janela. Toda vez que o sol passava por ele, o vagão se iluminava instantaneamente.
E tinha aquela menina... Cabelos longos, acobreados, a pele mais branca que já vi.
Olhava diretamente para o café parado em cima da mesa; Exalava solidão e tristeza.
Lágrimas que pareciam adocicar o café, a cada gota que chegava até ele.
Me sentei no banco em frente ao dela, olhando pra janela pensando no que iria falar – Mas ela foi mais rápida.
- Quando estou com vontade de chorar e começa a chover no mesmo instante, eu sempre penso que meus olhos se transformaram em nuvens e o céu está chorando por mim.
Sem saber exatamente o que dizer, olhei praqueles olhos acinzentados e perguntei:
- Mas por que choras tanto?
- Porque senão enlouqueço. O que você faz pra não enlouquecer?
- Eu pergunto.
- Não sente vontade de chorar? Nem quando está a beira de um abismo e a única saída é pular?
- Eu não. Eu pulo.
- Acho que choro por nós dois então.
- Pode ser. Talvez os teus olhos realmente se transformem em céu e resolvam chorar por nós dois.
- Pode ser.
- Qual é o seu nome?
- Eu tenho vários nomes.
- Fale.
- Meu nome é passarinho que não sabe voar. Meu nome é tarde de chuva em que a criança não sai pra brincar, meu nome é estar sozinho quando o que você menos queria era estar. Meu nome é tristeza, meu nome é cada sentimentozinho que dá um nó no peito e dá vontade de gritar. Como eu disse: Eu tenho vários nomes, nem eu mesma sei todos eles.
Por um instante, parecia que todos os sentimentos que desesperam qualquer ser humano passaram por mim. Como se cada pedacinho de tristeza do mundo viesse beijar o meu rosto.
Dei a volta na mesa e beijei a testa da garota. Ela continuou a me olhar com os olhos de dia nublado até quando dei as costas, depois disso, ela só encarou o café; Adocicando-o com lágrimas.
Voltei pro meu assento e caí no sono.
A noite tem 2 minutos quando você não sabe sonhar.

Travessuras da menina má;


"Havia parado de chover há muito tempo, sem dúvida, porque os vidros já não estavam embaçados. A menina má continuava grudada no meu corpo, com as pernas enredadas nas minhas e a boca encostada na minha bochecha. Senti seu coração; pulsava, compassado, dentro de mim.
A cólera havia evaporado e eu agora estava cheio de arrependimento por tê-la agredido e magoado, apesar de amá-la. Beijei seu rosto com ternura, tentando não acordá-la e sussurrei bem baixinho em seu ouvido: "Amo você." Não estava dormindo. Apertou-se contra mim e disse, colocando os lábios sobre os meus, enquanto sua língua bicava a minha entre uma palavra e outra:
- Você nunca vai viver sossegado comigo, estou avisando. Porque não quero que você se canse de mim, que se acostume comigo. Vamos nos casar, mas nunca serei sua esposa. Quero ser sempre sua amante, sua cachorra, sua puta. Como esta noite. Porque assim vai ficar sempre louquinho por mim.
Falava essas coisas me beijando sem trégua e tentando se meter inteira dentro do meu corpo."


(Mario Vargas Llosa)